FacebookTwitterLinkedInRSS FeedPinterest Pin It

Os 70 Anos do Trólebus em São Paulo: História, Desafios e Futuro desse Cartão-Postal da Capital Paulista

Notícias
Ferramenta
Tipografia
  • Menor Pequeno Medio Grande Maior
  • Padrao Helvetica Segoe Georgia Times

Hoje, 22 de Abril, o sistema de trólebus (o famoso ônibus elétrico) completa 70 anos de operações em São Paulo, com muita história, mas também com críticas e duvidas sobre a política de transporte voltada à manutenção e expansão de sua rede.

Texto: Antonio Marcos Moraes Junior

trolebus 69anos 06

O trólebus fábricado pela britânica BUT – British United Transport, foi o veículo dirigido pelo governador Adhemar de Barros dando assim, inicio as operações dos trólebus no Brasil em 1949

Não é de hoje que os trólebus são apresentados aos turistas e amigos de outras partes do país pelos paulistanos como um dos “símbolos” da maior cidade do Brasil. Também, pudera: os coletivos com suas alavancas e seu ruído quase imperceptível, fazem parte do visual paulistano desde 1949. Foi nesse ano, em 22 de abril, na presença de autoridades e com toda a pompa e circunstância que os primeiros veículos desse tipo foram apresentados ao país nas primeiras horas da manhã.

trolebus 69anos 07

A CMTC adquiriu 20 veículos do trólebus americano fabricado pela WESTRAM/Westinghouse

Eram 30 veículos, sendo 4 fabricados pela britânica BUT – British United Transport, 20 fabricados pela americana WESTRAM/Westinghouse e 6 fabricados pelo também americano consórcio formado por Pullman Standard/General Electric. Todos os veículos foram adquiridos para operações iniciais na linha 216 – Aclimação/Praça João Mendes, substituindo a linha 19 do antigo sistema de bondes da capital. Essa segue em operação comercial até os dias atuais, como 408A/10 – Machado de Assis/Cardoso de Almeida, respeitando, obviamente, mudanças no viário da cidade e alguns prolongamentos.

trolebus 69anos 05

Para completar a frota de 30 veículos, a CMTC adquiriu 6 unidades do trólebus americano fabricado pela Pullman Standard/General Electric

Esses veículos em questão foram adquiridos para a extinta (e saudosa) CMTC – Companhia Municipal de Transportes Coletivos, empresa pública que operava e administrava os transportes em São Paulo, e marcaram um fato histórico no país. Eram os primeiros trólebus da América Latina, tornando a companhia e a capital paulista pioneiras nesse tipo de transporte.

trolebus 70anos 10

Trólebus fabricado nas oficinas da CMTC nos anos 70

O evento de inauguração dos trólebus contou com a presença de autoridades como o governador do Estado à época Adhemar de Barros, a primeira-dama do Estado, Leonor Mendes de Barros e diversas outras autoridades, incluindo o prefeito da capital, Asdrúbal da Cunha. O evento foi grandioso, pois acompanhava a ambição do projeto de trólebus no país.

trolebus 70anos 04

O trólebus americano TC-44 fabricado pela ACF Brill em 1948 possuía na época sistema de freios a ar, uma grande novidade para época.
Esse modelo foi totalmente reformado no final dos anos 80 para participar da comemoração do aniversário de 40 anos do trólebus e hoje é preservado pela SPTrans.

Os veículos eram o suprassumo da tecnologia de transportes na época. Fabricados em sua maioria nos Estados Unidos, os veículos contavam com sistema de alimentação aéreo de Energia Contínua, utilizando-se de dois ramais elétricos, sendo um fase de 600V e um sendo o aterramento neutro. Isso se difere do bonde, pois o veículo elétrico sobre trilhos capta o neutro aterrado da linha férrea. O trólebus como possui pneus não conduz o neutro. Isso é simples de entender-se hoje, porém o contexto da época era diferente: Além de tecnologias muito limitadas e com a engenharia de transportes embrionária, o mundo ainda chorava as atrocidades da Segunda Guerra Mundial, e chafurdava num conflito ideológico entre Estados Unidos e União Soviética, que depois seria conhecido como Guerra Fria. Mesmo assim, o veículo possuía motor elétrico com rotação infinita, possibilitando a ausência de câmbio, tendo assim uma viagem mais confortável, sem trocas de marchas e solavancos, e tinham 140cv de potência, com freios a ar.

trolebus 70anos 03

Trólebus fabricado pela carioca Ciferal, fez parte do ambioso projeto de expansão do sistema trólebus no final dos anos 70

A rede de trólebus, instalada também pela CMTC, possuía em 1949 a extensão total de 7,2Km. Em 1959 essa rede já contava com 31,9km. Após isso, a rede só aumentou até os anos 2000, em extensão e números de veículos.

trolebus 70anos 05

A CMTC sempre buscou alternativa para continuidade do sistema de trólebus, passando até a produzir seus próprios ônibus

Em outros artigos no Portal do Ônibus, já abordamos assuntos importantes sobre o trólebus na cidade de São Paulo, como o projeto SISTRAN, o encerramento das operações da CMTC e inicio da iniciativa privada na administração dos trólebus, a decadência do sistema nos anos 2000 e a atual rede, administrada pela SPTrans, e operada pela Ambiental Transportes. O trólebus hoje é um veículo de rara tecnologia, contando com diversos itens que abordaremos mais pra frente no texto. Mas o que poucas pessoas sabem é que, na década de 80, a mesma CMTC, em parceria com a fabricante de Chassis Massari, a fabricante de componentes elétricos BBC e a encarroçadora CAIO – Companhia Americana Industrial de Ônibus (atual CAIO Induscar) um veículo trólebus com baterias replacement de autonomia de até 8km fora da rede elétrica. Essa tecnologia só tornou-se uma realidade como item de mercado na década atual. Não se sabe o resultado dos testes desse veículo, mas isso reitera o que todos sabemos: A CMTC sempre buscava o melhor em tecnologia, e o trólebus sempre foi um tipo de veículo à frente de seu tempo.

      Leia também:

trolebus 70anos 12

Esse ônibus fabricado pela Striulli, foi transformado em trólebus pela própria CMTC 

O fato da CMTC ser operadora trazia vantagens em termos de resultados eficazes sobre o trólebus e sua rede. Era possível identificar falhas e vantagens de operação em tempo real. Hoje a gerenciadora SPTrans, por exemplo, depende de diversos fatores, como empresas e suas políticas para identificar quaisquer problemas ou inovações tecnológicas. Um exemplo recente é que, em meados de 2000, diversos trólebus foram desativados porque muitas empresas credenciadas na operação do transporte  coletivo da capital paulista não tinham interesse em manter essa tecnologia. Anos mais tarde, um projeto lançado pela própria Prefeitura de São Paulo e batizado de EcoFrota apontou que, além da vantagem ambiental do sistema de trólebus, há uma considerável vantagem econômica. O fato de ser menos poluente já é por si só um fator econômico: além de evitar gastos futuros com saúde pública com a diminuição da poluição, ainda evita o surgimento e propagação de doenças que, indiretamente, utilizam-se da poluição e desequilíbrio ambiental.

trolebus 70anos 02

Trólebus fabricado pela CAIO / MASSARI / BBC, com baterias e autonomia para marcha autonoma (sem usar a rede área) de 8 km, tecnologia testada pela CMTC em 1988 

Hoje o sistema de trólebus na capital paulista faz aniversário muito menor do que já foi. Na verdade, ele sobrevive em operação e possibilita que essa homenagem não seja póstuma apenas por uma empresa: a Ambiental Transportes Urbanos. A mesma possui frota própria de 201 veículos, sendo a empresa no Brasil que fez a maior aquisição de trólebus na era pós-CMTC. Mesmo enfrentando dificuldade dentro do sistema e limitações operacionais, a Ambiental tem uma operação regular comercial invejável, tendo nota média de 75 no Índice de Qualidade de Transporte da SPTrans. 

trolebus 70anos 08

Buscando novas tecnologias, a CMTC testou o trólebus alemão O-305 fabricado pela Mercedes-Benz

Mesmo assim, o sistema de trólebus não parece ter um futuro brilhante. As recentes políticas públicas e investimentos da iniciativa privada nessa tecnologia parecem quase nulos. Ao mesmo passo que em 1949 a fita do trólebus BUT foi cortada pela primeira-dama do Estado Leonor Mendes de Barros como uma jogada política infalível, a desativação de boa parte da rede e a descontinuidade de expansão do sistema, somados à escassez de fabricantes e fornecedores desse tipo de veículo, mostram que o futuro do Trólebus é nebuloso. A entrada no mercado de ônibus híbridos e movidos 100% à bateria também parecem sentenciar esse tradicional sistema que deu seu pontapé inicial na América latina no popular bairro da Aclimação, 70 anos atrás.

trolebus 70anos 07

A CMTC no inicio dos anos 80 passa a fabricar trólebus com caracteristicas do projeto Padron

O preço do progresso segue sendo alto em diversos aspectos da sociedade, mas enquanto nos últimos 15 anos o trólebus vem sendo visto por sociedade civil e autoridades brasileiras como algo ultrapassado e, especialmente em São Paulo, como um transtorno, em diversos países na Europa esse sistema tem investimentos pesados de implantação e tecnologia. Em alguns lugares do mundo, a alavanca de alimentação já é pneumática, com colocação automática na rede e viário exclusivo e bem acabado para os veículos servirem à população. O sistema Park And Ride de Berlin (sistema BRT da capital alemã que integra estacionamentos de veículos particulares com corredores de ônibus e sistema metroviário) possui diversos trechos operados por trólebus. O que mais chama atenção é que esse sistema alia baterias replacement que dão autonomia ao trólebus em trechos onde a rede aérea não existe e as alavancas pneumáticas conectam-se automaticamente à rede onde ela existe.

trolebus 70anos 09

No final dos anos 80 a CMTC testou o monobloco O-371 TR da Mercedes-Benz

Esse texto serve para nós, usuários, fãs do trólebus e operadores comemorarem a longevidade do sistema. Mas serve de alerta: o sistema de trólebus de São Paulo é um idoso que, aparentemente, foi esquecido no asilo. Enquanto não houverem políticas públicas realmente eficazes para a expansão e manutenção desse tradicional sistema na maior cidade do país, seu futuro será ser refém de boa vontade política. Infelizmente, o trólebus deixou de ser bandeira eleitoral, então seu futuro é incerto.

trolebus 70anos 14

Trólebus da linha Circular Central, foi a última linha com sinal de expansão do sistema do trólebus na cidade

Aos que nunca tiveram o prazer de apreciar uma viagem de trólebus, façam-no. A sensação é realmente indescritível, além do Meio Ambiente, que lhe será eternamente grato por sua escolha.

trolebus 70anos 22

Trólebus da Busscar marcou o inicio da renovação da frota nos anos 2000

Aos críticos do sistema, e aqueles que deveriam zelar por ele, mas que não parecem estar muito preocupados, um outro alerta: o investimento na rede de trólebus em detrimento das operações com combustível fóssil não é apenas para preservar um cartão-postal da cidade, tampouco para que eu possa escrever um artigo homenageando os 80 anos do sistema em 2029. É sim porque, se houver um artigo sobre os 140 anos do trólebus em São Paulo, ele será escrito, possivelmente, por um de nossos filhos e netos. E, para que os mesmos possam ter saúde, qualidade de vida e ar respirável que os possibilite realiza-lo que desejo: Vida longa ao trólebus!

trolebus 70anos 24

Hoje os trólebus possuem um padronização visual própria e diferenciada dos demais veículos do sistema e contam comfrota de 201 veículos, todos operados pela empresa Ambiental Transportes Urbanos


 Veja mais fotos:

trolebus 70anos 13

Vista do pátio da Garagem do Brás da CMTC nos anos 80

trolebus 70anos 06

Mafersa trólebus fabricado em 1986

trolebus 70anos 11

Único Mafersa trólebus a receber a pintura inicial do governo Erundina (PT)

trolebus 70anos 15

Marcopolo Torino GV operado pela Eletrobus em meados dos anos 90

trolebus 70anos 17

O carro 68 8001 foi o primeiro trólebus articulado a participar do processo de reforma no final dos 90

trolebus 70anos 15

Trólebus com plotagem em comemoração as 50 anos trólebus

trolebus 70anos 16

No governo da Marta Suplicy (PT) dá o ínicio da desativação do sistema de trólebus na Zona Sul e Zona Norte da cidade.
Trólebus Marcopolo Torino GV operado pela empresa TB Transportes e Serviços (Transbraçal)

trolebus 70anos 18

Mafersa Trólebus da empresa Viação São Paulo São Pedro que ligava o Terminal Santo Amaro ao Terminal Bandeira via corredor exclusivo

trolebus 70anos 19

Trólebus Neobus Mega Evolution caracterizado com o projeto do corredor inteligente que informava o tempo de espera dos ônibus no corredor Santo Amaro / 9 de Julho

trolebus 70anos 20

O trólebus articulado 8001 também fez parte da operação do corredor inligente em 2003

trolebus 70anos 21

Protótipo do trólebus Ibrava

trolebus 70anos 23

Trólebus Marcopolo Torino GV restaurado pela Ambiental Transportes e apresentado na 12ª BBF

trolebus 70anos 25

Único trólebus do sistema a utilizar a padronização de veículos das linhas estruturais.