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Os Trólebus Articulados da Cidade de São Paulo

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Ao longo dos 70 anos em que os trólebus estão em operação na cidade de São Paulo, foram muitos os veículos que fizeram parte dessa longa e fascinante história dos ônibus elétricos. Mas dentre tantos exemplares de trólebus que já circularam na capital Paulista, duas unidades deixaram suas marcas na trajetória do modal: os dois únicos trólebus articulados do sistema de São Paulo, denominados de 8000 e 8001 pela CMTC, operadora original das unidades.

Texto: Victor Santos
Revisão: Dorival Nunes Bezerra

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Chegada do 8000 na GTA (Garagem Tatuapé) da CMTC em 1985.

Com a recente comemoração dos 70 anos dos trólebus em São Paulo e, consequentemente no Brasil, relembraremos o histórico dos dois trólebus articulados que fizeram parte de um ambicioso plano de reestruturação dos trólebus na década de 1970.

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A CMTC recebe também em 1985 o 8001 na GTA.

Durante a primeira crise do sistema de trólebus em São Paulo, a CMTC, na época operadora das linhas de trólebus, iniciou um programa para melhorar a operação e rentabilidade das linhas. O programa ganhou o nome de “Projeto SISTRAN – Sistema Integrado de Transportes” que, além de pressupor a reestruturação da rede, previa também a manutenção e sua expansão, acréscimo de frota e extensão das linhas. Esse projeto tornou-se muito importante para o transporte sobre pneus da cidade, pois gerou muitos resultados positivos como, por exemplo, a construção de dois corredores de ônibus que seriam os propulsores da cidade: o Paes de Barros (1980) e o Santo Amaro (completo em 1987).

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Em 1987, o 8000 foi transferido para GSA (Garagem Santo Amaro) e passou a operar no corredor Santo Amaro / 9 de Julho.

Um dos projetos propostos era a estruturação das linhas através de um sistema tronco-alimentador, em que os ônibus a diesel seriam utilizados nas ligações locais até terminais de transferência, onde os trólebus articulariam as ligações para o centro, através de corredores exclusivos. Para isso, foi proposta a aquisição de cerca de 1280 trólebus entre Padron e articulado, gerando uma grande concorrência no setor, para levar a licitação para tal aquisição. Então surgiram dois protótipos de trólebus articulados, até então nunca utilizados no Brasil, oferecidos por duas grandes fabricantes de carrocerias para ônibus: a CAIO e a Marcopolo.

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O 8001, continuou na GTA sendo utilizado na operação das linhas de trólebus na zona leste.

Em 1985, chegou à CMTC o “8000”, com carroceria modelo Padron Amélia II da CAIO, chassi B58 articulado da Volvo e sistemas elétricos da Villares. O modelo chamava muito a atenção das pessoas por ser uma novidade na época, pois os articulados em linhas urbanas ainda eram novidade para grande parte das cidades, embora em amplo crescimento de uso.

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Na gestão do prefeito Jânio Quadros o 8000 recebe a pintura totalmente vermelha, uma marca registrada do Jânio para lembrar os ônibus londrinhos.

O “8001”, segundo trólebus articulado da cidade, chegou ao mesmo tempo que o primeiro, porém,  este veio com carroceria da Marcopolo, modelo San Remo II, com chassi S-112 AL da Scania e sistemas elétricos da PowerTronics. As duas grandes fabricantes de modelos urbanos da época se animaram com a proposta promissora da Companhia Municipal de São Paulo, prevendo a aquisição de 450 unidades articuladas de trólebus.

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8001 também recebeu a pintura toda vermelha do Jânio e foi apresentado na época, junto com a entrega de novos ônibus no Parque do Ibirapuera.

Com a possibilidade de receber tantos trólebus articulados novos, a CMTC reservou a série “8000” para as novas aquisições, uma vez que a companhia utilizava cada série prefixal para um determinado tipo de ônibus. Devido à descontinuidade do imenso projeto por razões políticas, a licitação para a compra de mais unidades foi cancelada, tornando o 8000 e o 8001 os únicos na cidade até aquele momento.

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No inicio dos anos 90, o 8000 recebe nova pintura na gestão da prefeita Luiza Erundina.

Em meio a tantos trólebus comuns na cidade, os dois trólebus se destacavam pela alta capacidade de carregamento, pelo tamanho e pela lembrança de um projeto moderno para época. Inicialmente, foram recebidos pela Garagem Tatuapé da companhia (GTA), onde operaram em quase todas as linhas de trólebus da zona leste, sobretudo nas linhas 2100, 2280 e 2290.

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Em 1992 o 8000 recebe novamente uma pintura, dessa vez a identidade visual do novo sistema de transporte da cidade, o Municipalizado, e também é acrescentado antes do prefixo o lote 57 referente a GSA. 

Somente após a conclusão das obras da nova Garagem Santo Amaro (GSA), é que um dos trólebus articulados foi repassado para a nova garagem que atenderia o recém-inaugurado corredor Santo Amaro – Nove de Julho – Bandeira. Enquanto o trólebus 8000 foi para a garagem na zona sul, o trólebus 8001 continuou com as operações na garagem da zona leste da companhia.

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O 8000 também recebe a nova pintura do Municpalizado e é acrescentado antes do prefixo o lote 60 referente a GTA.

 Com os novos tempos chegando, já nos anos 1990, e uma série de questões ambientais começando a ser discutidas, os trólebus pareciam ter novas chances de expansão e ampla utilização nas cidades. A municipalização, ocorrida em 1992, ocasionou diversas alterações no sistema de transporte da cidade e trouxe mudanças positivas e negativas para a própria CMTC. No ano seguinte, iniciou-se o processo de privatização da CMTC que durou dois anos até ser totalmente concluída em 1995, com a criação da SPTrans – São Paulo Transporte.

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A TCI - Transporte Coletivo Imperial foi a primeira empresa a assumir as operações da GSA.

 Ainda durante a municipalização do sistema, para facilitar a identificação das garagens e veículos, foi criada uma nova tipologia de prefixação dos ônibus e trólebus, composta por seis dígitos, sendo os dois primeiros relativos à garagem à qual o veículo pertencia e os quatro últimos a identificação do carro.

Pertencente à Garagem Santo Amaro, lote 57, o 8000 passou a ser identificado como 57 8000. Já o trólebus 8001, pertencente à Garagem Tatuapé, lote 60, foi reprefixado para 60 8001.

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A Eletrobus C.P.T.O. (Consórcio Paulista de Transporte por Ônibus) é a empresa que assumiu as operações da GTA.

Com a conclusão do processo de repasses de garagens e trólebus, que era o terceiro lote da privatização, a situação ficou da seguinte maneira: A Garagem Santo Amaro, agora lote 67, com trólebus e articulados, foi concedida a concessão inicialmente pela TCI – Transportes Coletivos, junto com o 67 8000 e as linhas pertencentes àquela garagem, enquanto a Garagem Tatuapé, que passou a ser o lote 68 e exclusivo para os trólebus, foi concedida a concessão para Eletrobus e o 68 8001 fazia parte da frota concedida. 

 

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Após a criação da SPTrans é elaborado uma nova identidade visual para as linhas trocais e o 8000 é repintado novamente.
Essa foto foi o momento em que o 67 8000 chega a garagem da Eletrobus para iniciar o processo de reforma em 1997.

Posteriormente,  aconteceram mudanças nas empresas que operavam os trólebus, sendo a TCI substituída pela Viação Soares Andrade e, por último a Viação Santo Amaro assumiu a Garagem Santo Amaro, repintando o 67 8000 para a tradicional faixa verde dos ônibus articulados da cidade. Nessa época, meio dos anos 1990, o sistema de trólebus de São Paulo havia atingido seu auge com 343,5 quilômetros de rede, 24 linhas e 557 trólebus em operação.

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O 8001 não ganhou cor nova, mas houve mudança na tipografia, espessura da faixa e passou a estampar o logo da SPTrans nas laterais.

 Em 1996, após dez anos em operação comercial, os dois trólebus articulados da cidade foram enviados para uma modernização geral da parte elétrica e da própria carroceria, embora ainda nova para o tempo de vida útil de um trólebus. Muitos outros trólebus, porém, comuns, foram enviados também para a modernização, vários deles ainda com características originais.

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68 8001 é desmontado para inicio do processo de reforma.

 O primeiro articulado a ser enviado foi o 68 8001, ficando seis meses afastado das ruas, retornando com uma nova carroceria e um novo sistema elétrico. O 68 8001 retornou da modernização com uma nova carroceria, agora modelo Torino GV (Geração 5) da Marcopolo, permanecendo apenas com o chassi, fabricado pela Scania e sistema elétrico original, fabricado pela Powertronics. Recebeu também as portas na esquerda, em piso alto para operar no corredor da Rio Branco.

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Após o processo de reforma, o 68 8001, volta para GTA totalmente repaginado.

Já em 1997, o 67 8000 foi enviado também para a modernização geral, sendo um dos últimos a passar por esse processo, retornando às ruas pouco tempo depois. Assim como o 68 8001, recebeu uma nova carroceria de fabricação da Marcopolo, Torino GV, porém com o sistema elétrico da GEVISA. Também após o retorno da reforma, o 67 8000 foi enviado para a Garagem Tatuapé e começou a operar pela Eletrobus, com o prefixo 68 8000.

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Com novo lote, o 68 8000, voltou da reforma e era o ônibus mais moderno da cidade na época.

Uma curiosidade do 68 8000 era que após o retorno da reforma, havia itens que o diferenciava dos demais ônibus da cidade. Tais itens eram o ar condicionado, sistema de monitoramento das portas, janelas seladas, retrovisores elétricos, música ambiente e microfone para anúncio das paradas. Ele foi o primeiro ônibus municipal de São Paulo a possuir ar condicionado e janelas seladas. O 68 8000 também foi utilizado em outro grande projeto denominado de “Fura-Fila”, onde se previa a utilização de trólebus articulados e biarticulados em corredores exclusivos com guiagem. Foi testado ao lado do 68 8001, que passou por uma pequena reforma para receber os mesmos itens do primeiro e do protótipo da Marcopolo para trólebus biarticulado no corredor. O projeto também não foi adiante e os dois trólebus articulados retiraram as pinturas especiais para o Fura-Fila e ficaram um tempo parados nas garagens.

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68 8000 com a pintura do projeto do VLP (Veículo Leve sobre Pneus) na gestão do prefeito Celso Pitta.

O 68 8001 foi enviado para Expandir Transportes em compensação à desativação dos trólebus antigos, recebendo o prefixo 369 8001, enquanto o 68 8000 permanecia parado para adaptá-lo novamente à operação comercial. Depois, foi enviado para a Eletrosul com a desativação dos trólebus que correspondiam à operação da Expandir, recebendo o prefixo 767 8001.

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O 68 8001 também participou do teste do projeto VLP.

O destino do 68 8000, ao retornar, foi ser enviado direto para a Eletrosul com o novo prefixo 767 8000. Em meados de 2003, ele recebeu nova prefixação, agora do sistema Interligado e tornou-se 7 5096.

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Em 2003, o 8001, foi transferido para GSA e passou a ser operado pela Viação Eletrosul com uma nova identidade visual na gestão da prefeita Marta Suplicy.

O novo milênio se iniciava e o sistema de trólebus mais antigo do Brasil parecia que chegaria ao seu fim, pois dois meses depois do novo sistema de transporte da cidade, a operação de trólebus na zona sul também foi desativada e, por conseguinte,  o sistema de trólebus caiu de quase 350 quilômetros de rede para pouco mais de 200, metade da frota foi sucateada e linhas receberam ônibus movido a diesel nas operações.

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Pouco tempo depois, o 8000 também foi transferido para GSA.

Como citado acima, a Eletrosul recebeu o lote 7 5xxx do sistema Interligado, operando os trólebus da zona Sul da cidade. Após a desativação dos trólebus na região, o 7 5096 foi repassado a TRANSPPASS - Transporte de Passageiros, do Grupo Santos (após alguns meses a TRANSPPASS deu lugar para a empresa Himalaia Transportes, e em 2006 foi formado o Consórcio 4 Leste). Posteriormente, o 767 8001 foi enviado também para a Himalaia depois de um bom tempo parado devido a problemas mecânicos. Lá, o 767 8001 e o 7 5096, antigo 767 8000, receberam os prefixos 4 1485 e 4 1486, respectivamente. As duas unidades ainda chamavam a atenção quando cruzavam os bairros, mesmo nessa época já existindo mais trólebus articulados em operação na região do ABC Paulista.

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Implantado o novo sistema da cidade, o Inteligado em 2003, o 767 8000, passa a ter o prefixo 7 5096.

Em 2011, a Himalaia Transportes deixou de operar no sistema de São Paulo, dando lugar à Ambiental Transportes Urbanos, pertencente ao Grupo Ruas. Assim, todos os trólebus, incluindo os dois articulados, foram repassados à nova empresa, que tratou logo de iniciar a modernização da frota de trólebus da cidade. Aos poucos, era decretada a aposentadoria dos únicos trólebus articulados da cidade.

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Com a desativação dos trólebus na zona sul, ambos articulados são transferido de volta para GTA e operados inicialmente pela TRANSPPASS.

O 4 1486 foi o primeiro a ser baixado do sistema em 23 de janeiro de 2012, após 27 anos em operação, sendo 13 com a carroceria do Torino GV. Como ainda pertencia à frota remanescente da SPTrans, herdado da CMTC após o fim da mesma, foi enviado para o Pátio Santa Rita, onde permaneceu preservado e aguardando uma restauração.

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O 767 8001 recebeu o novo prefixo do sistema interligado, 4 1485.

Era apenas questão de tempo para que o 4 1485 recebesse sua aposentadoria e isso ocorreu em 10 de dezembro de 2012, quando a unidade foi retirada definitivamente de serviço, decretando o fim dos trólebus articulados da capital paulista. A essa altura, o sistema passava por um processo de renovação da frota, aposentando trólebus da frota pública com pouco mais de dez anos de uso para trólebus mais modernos.

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4 1485 e 4 1486 cruzando em sentidos opostos na Av. Conselheiro Carrão.

Após autorização, o eterno 8001 foi retirado de circulação, enviado para a SPTrans que, graças ao apelo popular pela importância histórica dos trólebus, manteve-o guardado no pátio da companhia. Embora não mais operacional, o trólebus permaneceu ao lado do 8000 no Pátio da Santa Rita da SPTrans, também aguardando uma restauração. 

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4 1486 partindo para seu último dia de operação no inicio de 2012.

Operacionalmente falando, no lugar do 4 1486, entrou o 4 1775 (protótipo do trólebus de 15 metros) fabricado pela CAIO Induscar modelo Millennium II com chassi Scania, modelo K-270 UB 6x2*4  e sistemas elétricos da Eletra e WEG. No lugar do 4 1485, o trólebus que o substituiu foi o 4 1501 com carroceria da CAIO Induscar, modelo Millennium BRT, com chassi da Scania, K270 UB 6x2*4 de 15m e sistemas da Eletra e Weg.

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Último dia de operação do 4 1485 no final de 2012 na linha 342M (Term. São Mateus / Term. Penha).

Com a aposentadoria do 8001, deu-se por encerrada uma Era na história do sistema de trólebus de São Paulo, marcada por altos e baixos, ampliações e sucateamento do sistema. Até hoje, nenhum outro trólebus articulado operou na cidade, se restringindo às unidades pertencentes à concessionária Metra, de São Bernardo do Campo, que opera o Corredor ABD.

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O 4 1485 (8001) sendo reformado para ser entregue a SPTrans em 2012.

Em 2018, o Portal do Ônibus sugeriu à SPTrans a restauração do trólebus 8000, pois soube que o carro estava em plena condição de operação, apesar do tempo parado. Restaurar tal veículo seria ter a chance de viver novamente a presença histórica deste ícone do transporte da cidade.  Findadas algumas discussões sobre o projeto da restauração, foi proposta à Ambiental Transportes (que aceitou prontamente) a restauração dos dois trólebus para serem expostos na 12ª edição da BusBrasil Fest. Tal edição foi marcada pela presença do 68 7577, um trólebus Padron Torino GV e pelo 68 8000. Conforme a expectativa criada pelos organizadores, a presença destes veículos foi uma grande surpresa e fez grande sucesso perante o público. Ambos chamaram muito a atenção dos visitantes que puderam relembrar bons momentos através da pintura histórica dos anos 90 da SPTrans.

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O 68 8000 foi restaurado pela Ambiental Transportes e apresentado pela SPTrans na 12ª edição da BBF.

Ao completar 70 anos em operação, é impossível falar de trólebus em São Paulo sem lembrar destes dois ícones do sistema. Ambos foram frutos de um projeto que poderia ter sido melhor aproveitado, mas os interesses político-partidários, infelizmente, não permitiram e o projeto  acabou não recebendo a atenção que merecia.  Hoje , resta apenas imaginar como poderia ter sido a operação de muito mais trólebus articulados em corredores exclusivos.