Você sabe andar de ônibus em São Paulo? Parte II

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Como funciona o sistema numérico da capital paulista.

Caros leitores e seguidores dos canais Portal do Ônibus, dando sequencia à série “Você sabe andar de ônibus em São Paulo?”, nesse artigo falaremos sobre o sistema numérico das linhas da capital paulista. Um sistema complexo e por muitas vezes confuso, mas que originalmente tinha uma lógica louvável e até eficiente para a época.

vcsabe 14Época que o número das linhas eram sequenciais por sua criação.

As linhas de ônibus de São Paulo tem, normalmente, 4 dígitos, podendo ser 3 números e uma letra ou 4 números, mas nem sempre foi assim. Nos primórdios de algo que poderia ser considerado uma organização de linhas de ônibus, nos anos 50 e 60, a numeração das linhas era basicamente aleatória. A linha era numerada por ordem de criação, com até 3 dígitos. Não seguia sequência de região ou alguma lógica operacional. Isso perdurou até 1978, quando a prefeitura de Olavo Setúbal implantou o sistema Consórcio, ou Saia-e-Blusa, o primeiro sistema estruturado e pensado de transportes de São Paulo. Fora a estruturação das áreas (já comentado no texto anterior), criou-se uma lógica eficiente de numerar as linhas. Com a recém-inauguração do Metrô em São Paulo, a estruturação do sistema veio de encontro com novos transportes e demandas da cidade à época.

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Antiga Linha 6021 - Jd Guaravirutuba / Term. Sto. Amaro - Linha Regional sem Integração ao Metrô

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O transporte por ônibus na época foi dividido em 4 sub-sistemas: Regional e Radial (4 números, circulando apenas em uma única região ou finalizando o itinerário no centro),  e Inter-Regional e Diametral (3 dígitos e uma letra ao final, ambos os sub-sistemas ligavam duas áreas, podendo passar por uma terceira em meio à ligação).

A parte prática do negócio era inicialmente confusa e vamos tentar sintetizar. Cada área tinha um número, e percorria de 1 a 9, sendo o 0 a área central e nunca, em nenhuma hipótese, uma linha poderia ser iniciada no centro, portanto não teria sua numeração iniciada em 0. Vale ressaltar antes de continuar, que o 0, ou área central, era indubitavelmente apenas ponto final. É importante lembrar também que o conceito de centro de São Paulo evoluiu em quilometragem durante os anos. Na década de 70, apenas a região da Sé, Anhangabaú (Praça Ramos) e Praça da República eram consideradas centro pela prefeitura e CMTC. Hoje essas regiões são consideradas parte do centro da cidade e recebe a nomenclatura de Centro Histórico. Cada corredor possuía um dígito também e a forma de identificar uma linha Radial e Regional ou Diametral e Inter-Regional, por exemplo, estava no último digito, que na Radial e Regional seria sempre um número e na Diametral e Inter-Regional seria sempre uma letra. Abaixo vamos detalhar essa divisão seguindo a lógica do sistema.

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Linha 5793 - Fonte São Bento / Metrô Jabaquara - Linha Regional com integração ao Metrô

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Regional e Radial:

As linhas Regionais e Radiais tinham um único objetivo: interligar uma região específica ao centro ou a ela mesma. Poderíamos chamar, nos dias de hoje, de conceito Local e Troncal. Essas linhas tinham 4 números, sempre. O primeiro dígito indicava sua região. O segundo, que poderia ser de 0 a 9 tinha, talvez, o papel mais importante nisso tudo: se fosse 0, determinava que a linha era Regional, não saindo de sua área nem acessando o centro (abrindo assim uma exceção no citado acima sobre o uso do 0 no sistema), se fosse 7, significava que, em qualquer momento da linha, sendo no segundo ponto ou no ponto final, ela teria integração com o sistema metroviário, permitindo na época a compra de bilhetes do Metrô dentro do próprio coletivo. Se fosse de 1 à 6, essa linha acessaria grandes avenidas e terminaria no centro da capital. Logo, é lógico pensar que as linhas Radiais teriam sempre o segundo dígito entre 1 e 6, e as Regionais teriam sempre o segundo dígito sendo 0 ou 7. Os dois últimos dígitos seriam o número sequencial da linha, aí sim, seguindo uma ordem crescente. Algumas exceções foram as linhas de inicio 68xx, que, após terminadas as possibilidades de sequencias à partir de 60xx, na região da zona Sul, foi inaugurado o Terminal Capelinha. Com quase 100 linhas iniciadas em 60xx (da 6000 até a 6099), mesmo com algum espaço de numeração entre elas, as linhas remanescentes desse novo terminal ultrapassariam essa lógica numérica, então foi aberta uma exceção para novo sequenciamento. As linhas novas do Terminal Capelinha já iniciariam em 68xx, e as linhas regionais do Terminal João Dias completariam essa sequencia, sendo renumeradas também para 68xx. Por exemplo, a linha 6055 - Jd. Ibirapuera / Term. João Dias, houve a mudança do número da linha para 6801.

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Linha 106A - Exemplo de linha Diametral que cruzam o Centro sem integração com o Metrô

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Inter-Regional e Diametral

Essas linhas tinham como ponto em comum, interligar  áreas diferentes da cidade. Como a cidade foi dividida em 9 áreas mais o centro, essas linhas eram bastante comuns, e sempre interligavam duas áreas acessando ou não uma terceira, que poderia ser o centro. E você saberia, teoricamente, que essa linha atravessava de uma região a outra porque, ao contrario das demais linhas, ela terminava com uma letra. Seu primeiro dígito identificava a área em que ela partia, sendo sempre de 1 a 9. O segundo dígito identificava a região em que ela atravessaria para chegar a seu ponto final ou um corredor específico que ela passaria. As regras eram básicas: Se o segundo dígito fosse 7, ela teria em sua extensão aquela mesma integração com o Metrô das linhas Regionais;  se o segundo dígito fosse 0, ela seria Diametral, pois atravessaria o centro, sem integração ao Metrô. Se fosse de 1 a 6, ela passava por um corredor especifico ou atravessaria a região correspondente à numeração, sem passar pelo centro. O terceiro número indicava a região do ponto final, podendo ser também de 1 a 9. E a letra no final seria o número sequencial da linha, mas não em ordem alfabética. Para facilitar a memorização dos usuários, era utilizada sempre uma letra que identificasse o nome do bairro ou avenida importante que ela passasse. Um bom exemplo de linha Diametral é a clássica 208A – Penha / Lapa. O 2 é correspondente à área do bairro da Penha. O  0 é correspondente ao Centro. O 8 é a área do bairro da Lapa. E o A é o número da linha, letra encontrada no nome do bairro principal (PenhA).

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Linha 175T - Exemplo de linha Diametrais que cruzam o Centro com integração ao Metrô

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Uma terceira regra, que saia do contexto era a nomenclatura numeral dos corredores. Algumas linhas, em todos os sub-sistemas, deveriam respeitar uma sequencia numérica específica, caso acessassem em seu itinerário, determinadas vias ou sequencias de vias. Veja alguns exemplos:

Linhas 1178 – São Miguel / Praça do Correio e 1156 - Vila Sabrina / Praça do Correio: linhas que, apesar de iniciarem em áreas distintas, acessam o corredor Marginal Tietê / Ponte das Bandeiras / Avenida Tiradentes. Corredor esse, identificado pelo número 11xx.

Linhas 5100 – Pinheiros / Praça da Sé e 5178 – Jardim Miriam / Largo São Francisco: Linhas também de regiões distintas, mas que seguem pela Avenida Brigadeiro Luis Antonio, corredor identificado pelo número 51xx.

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Antiga Linha 5341 - Jd. São Francisco / Praça da Sé - Linha Radial via 23 de Maio (itinerário original)

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Assim como outros corredores, tais como:

Corredor 26xx: Linhas que seguiam pelas Avenidas Marechal Tito / São Miguel / Amador Bueno da Veiga / Celso Garcia.

Corredor 34xx: Linhas que vinham da região do Itaim Paulista / Avenida São Miguel / Radial Leste.

Corredor 35xx: Linhas que seguiam pelo centro de Guaianazes / Radial Leste / Centro da cidade.

Corredor 53xx: linhas iniciadas em regiões indiferentes, mas que seguiam pelas avenidas Vereador José Diniz / Ibirapuera / 23 de Maio

Corredor 56xx: Linhas que seguiam pelas avenidas InterlagosWashington Luís / Rubem Berta e 23 de Maio.

Estamos em fase de levantamento de informações e fontes para poder citar todos os corredores de forma numérica para os leitores. Essas informações serão disponibilizadas nas próximas matérias.

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Antiga linha 675H - Jd. Ibirapuera / Metrô Jabaquara, uma linha Inter-Regional com integração ao Metrô

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Mesmo com todo o esforço de criar um sistema numérico nunca antes visto no país, a própria CMTC não divulgou os números como deveria, conforme tratamos no texto anterior, e esse sistema, mesmo que presente em diversas linhas até hoje, foi caindo em desuso pelas novas administrações. O desuso era iminente e deu-se com o tempo. Os próprios ônibus da época não tinham espaço reservado para a exibição do número da linha. Alguns possuíam a capela, mas nem sempre era usada ou adotada pelas empresas. As pessoas foram acostumando a não se importar com o número. Algumas gestões ainda fizeram cortes em determinadas linhas sem alterar seu número. Outras prolongaram linhas, descaracterizando o dígito final ou seu corredor, sem alterar também a identificação numérica. Na municipalização, mesmo com a identificação efetiva do número, as pessoas já não faziam menor ideia do que esses números significavam. O sistema Interligado jogou a última “pá de terra” na lógica numérica, quando, nas últimas gestões, foram criadas linhas com lógicas diferentes de numeração por conta da mudança das áreas.

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Antiga Linha 695K - Jd. Kagohara / Metrô Jabaquara, uma linha Inter-Regional sem integração com o Metrô

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Mas a Municipalização trouxe benefícios para o sistema numérico. Fora a exibição clara e efetiva do número da linha, pela primeira vez foi exibido o dígito de atendimento da linha, que até então era oculto. Trata-se do famoso /10, /21, /31, /41 e /51, que vamos tratar na próxima matéria. Nas matérias seguintes, também trataremos dos impactos das mudanças nas numerações e nomenclaturas das linhas, de um sistema “intermediário” de numeração, criado entre as gestões Kassab e Haddad, e do novo sistema de numeração, que será implantado com a licitação, que deve ser gestada ainda esse ano.