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Você Sabe Andar de Ônibus em São Paulo? - Parte I

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Começamos hoje no Portal do Ônibus uma série especial de reportagens sobre o transporte da cidade de São Paulo. Abordaremos nessas reportagens diversos assuntos, tópicos e curiosidades referentes ao sistema. Dúvidas comuns, outras nem tanto, mas que povoam a mente dos fãs de transporte, e dos usuários em geral.

Exemplo de falta de padrão na formulação dos letreiros e exibição das númerações das linhas

Todo sistema com base métrica inicia-se com números. O sistema de transportes sobre pneus em São Paulo não é diferente. Em 1978, o atual sistema de transportes de São Paulo foi promulgado pela então prefeitura da cidade, sob administração de Olavo Setúbal, e implantado pela gestora e operadora à época, a CMTC. Com um esquema complexo e muitas vezes complicado de se entender, a CMTC e demais operadoras credenciadas de transporte iniciaram a operação do sistema “Consórcio”, que ficou conhecido como “Saia-e-Blusa”. A parte numérica era composta de 4 dígitos, podendo ser 3 números e uma letra, ou 4 números. A complexidade do sistema iniciava-se aí.

Um exemplo clássico é o Jd. Varginha. Bairro com diversas linhas, a própria CMTC ocultava o número de identificação

Cada dígito inicial tinha o objetivo de identificar a região da cidade cuja linha partia, os demais dígitos tinham objetivos diferentes, e dependendo de onde a linha terminava poderia ser um número diferente ou uma letra (esse assunto será tratado em matéria específica nessa série). Obviamente, os usuários não decoraram a lógica numérica da coisa. Muitas empresas também não ajudavam. A própria CMTC, durante muito tempo, não adotou a prática de expor o número da linha operada no letreiro. Só após muito tempo, em meados de 1984, que se tentou identificar melhor os carros em operação, indicando o número da linha no letreiro à frente, e numa capela instalada atrás. Tentou-se, pois mesmo a CMTC que implantou a medida, não a utilizava com frequência.

Itinerário traseiro: Idealizado em 1984, chegou a ser implementado mas não utilizado de forma eficaz

Com a chegada dos anos 90, muita coisa em São Paulo mudou. O sistema métrico de identificação das linhas permaneceu. Permaneceu também o grande desconhecimento da massa sobre esse sistema. A implantação do sistema Municipalizado não mudou a numeração das linhas, mas mudou o padrão de exibição dos números. Foi no sistema municipalizado que tornou-se obrigatória a exposição clara e efetiva da numeração da linha operada e seu sufixo (o famoso /10 e /21, por exemplo, que serão citados em matéria específica também). Implantação, talvez, um pouco tardia. Nos anos 90 a população paulistana já havia adquirido hábitos peculiares, em comparação ao resto do país. Em São Paulo, cita-se até hoje uma linha de ônibus pelo seu ponto principal e não pela sua numeração (exemplo: a linha 2626/10 Jardim Nazaré/Terminal Pq. Dom Pedro II é conhecida pelos paulistanos apenas como Nazaré). Como a numeração das linhas sempre esteve oculta ou em segundo plano pelas operadoras, os usuários, muitas vezes, desconheciam o número da linha que utilizam todo dia. A identificação da linha era feita até então apenas pelo que estava escrito na frente do ônibus. Se o ônibus estivesse escrito “Jardim Danfer”, sua linha seria conhecida como “Danfer”. O número ficaria em último plano. Por isso que até hoje, quando há alterações na nomenclatura da linha, há uma pequena confusão na área em que ela atende. Recentemente, a nomenclatura das linhas 2127/10 e 119C/10 foram alteradas. Antes, a 2127 operava como Jardim Brasil/Metrô Liberdade e a 119C operava como Vila Sabrina/Terminal Princesa Isabel. A operadora dessas linhas resolveu, para melhor infraestrutura operacional, unificar seus pontos no bairro Parque Edu Chaves. Essa mudança ocorreu 15 anos atrás. Porém, a nomenclatura seguiu sem alteração, justamente por conta dos usuários, que conhecem o trajeto da linha pelo destino e não pela numeração. Recentemente, a mesma operadora optou por modernizar a nomenclatura dessas linhas, alterando ambas para “Parque Edu Chaves”. Pois bem, a mudança gerou enorme transtorno aos usuários da região que, apesar da exposição satisfatória dos números de linhas atualmente, ainda baseiam os itinerários (nesse caso bem diferentes, porém com pontos em comum) pela nomenclatura da linha.

A municipalização deixava evidente a númeração da linha, tardiamente. Paulistano já havia acostumado de outra forma.

A municipalização queria mudar isso. Foi nessa época que a exposição do número da linha tornou-se obrigatória. Tanto no letreiro superior quanto numa placa abaixo, no para-brisa. A placa tinha por única finalidade mostrar de forma nítida em qualquer circunstância, o número da linha e seu atendimento. Esse padrão manteve-se durante toda a duração do sistema Municipalizado.

Inicio do Interligado gerou dúvidas, confusão e botou em cheque a eficácia do sistema.

Mas vale a pena dizer que São Paulo sempre esteve inclinada a uma pequena confusão. No ônibus não é diferente. Pouco tempo depois da população paulistana ter se acostumado com o novo padrão, os anos 2000 chegaram com mais algumas novidades. Em 2003, a gestão de Marta Suplicy acabou com o sistema Municipalizado, criou nova licitação e surgiu o sistema Interligado, que tinha como maior novidade o fim da pintura padrão da faixa vermelha e a criação de novo padrão visual, com diferentes cores para diferentes áreas. Áreas que mudaram também, o que outrora era área 5, tornou-se área 6, acabando definitivamente com a lógica do sistema númerico de identificação. Porém essa identificação foi mantida. A confusão era anunciada. A população e as próprias empresas operadoras não entendiam o funcionamento do sistema. Havia uma pintura padrão para operação de linhas estruturais e locais, porém muitas empresas operavam ambos os sistemas, e esse padrão deixou de ser seguido. Haviam empresas que operavam com cor de uma área, prefixo de veículo de outra e numeração de linha de outra área. (A atual Imperial Transportes opera uma linha na área 3, amarela, com prefixo iniciado em 5, verde, a linha 2590/10, que tem numeração da antiga área 2, porém parte do bairro União de Vila Nova, sentido Parque Dom Pedro II, uma linha totalmente baseada na atual área 3).

Exemplo de empresa operando no mesmo momento dois sistemas, com duas padronizações distintas.

Os anos passaram e mesmo com toda essa confusão, muitos pequenos problemas não resolvidos, outros gerados por novas administrações (carros da cor cinza, por exemplo, que não seguem nenhum padrão visual de identificação de sua área de atuação, porém implementados para “diferenciar” as linhas tronco de corredores) o sistema sobrevive. Hoje, além de dúvidas gigantes na lógica das numerações e outras confusões criadas por empresas operadoras que resolvem trocar a nomenclatura de suas linhas sem razão plausível ou estudo de impacto convincente, uma das grandes dificuldades dos usuários é identificar quem lhes presta serviço. Ao contrário da Municipalização e Saia-e-Blusa, o Interligado criou consórcios de operação por áreas. O consórcio não oculta mais o número da linha, mas diminuiu muito a exibição da empresa participante do certame. A logomarca do consórcio ganhou os holofotes e laterais dos veículos, porém a empresa participante muitas vezes nem sequer aparece. Registrar uma reclamação diretamente com uma operadora ficou quase impossível. Basicamente apenas quem trabalha ou acompanha o sistema sabe identificar por outros meios (modelos de veículos ou prefixo) qual empresa opera determinada linha. Entende-se que muitas coisas no transporte de São Paulo seguem ocultas ou mal divulgadas desde os primórdios, seja por desatenção, por intenção de ocultar ou apenas por desleixo.

Carro da área 3, com prefixo da área 5, operando linha localizada na atual área 3 com número da linha da antiga área 2.

A licitação de 2018 (caminhando a passos lentos desde 2015) trará mudanças profundas no sistema. Ou pelo menos promete um pouco mais de emoção e confusão aos usuários. Os paulistanos passaram por uma criação de sistema métrico complexo, ocultação de número de linha, mudança de pintura, mudança de operadoras, troca de nomenclatura, seccionamentos e afins, e terão que lidar com um certame que promete que em até 3 anos cortará 149 linhas de ônibus, mudará ou seccionará diversas outras, deve alterar nomenclaturas de linhas, deve alterar áreas operacionais e criar novas áreas locais, além de diminuir consideravelmente o número de veículos na frota. As operadoras deverão ser mantidas, com algumas exceções e pouquíssimas novidades. Mas a maior de todas deve ser a mudança da numeração, que deve incluir letras, números e pontuações. A prefeitura de São Paulo parece engajada nessas mudanças, mesmo com apelos populacionais muito bem embasados. Um dos maiores argumentos dos usuários é que não se muda algo de 40 anos em 3.

Ônibus Prata: Nova identidade visual, sem identifcação da área, gerou mais confusão.

Imagine então modificar algo que as pessoas demoraram esses 40 anos para entender o mínimo necessário para se deslocar. Parece loucura, mas a Prefeitura chama de “Transporte moderno e inteligente”. Curiosamente, essa mesma frase (ou bem parecida, ao menos), foi usada por Setúbal na época.

Mudança da nomenclatura das linhas tornou letreiros iguais para diferentes itinerários.

Esperamos que a nova licitação traga modernidade e inteligência ao sistema, mas sobretudo que traga maior facilidade de acesso a informações num modo geral, e que a numeração proposta no certame traga ao paulistano a beneficie de identificar um ônibus como os cariocas e londrinenses: pelo número e não pelo bairro. Bairros estão sujeitos à modificações constantes, porém a matemática é exata desde os egípcios.

Exibição clara e continua do número da linha fez carioca entender melhor seu sistema de transporte.

Nas próximas matérias traremos explanações sobre o sistema atual, sobre os números de linhas, seus atendimentos, serviços gerais prestados por empresas e um pouco mais de história de transporte. Essa série será dividida em 5 matérias.

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